UMA LEITURA DOS NOMES: O RECADO DO MORRO (GUIMARÃES ROSA)
A palavra é o mais poderoso recurso de expressão das vivências. Guimarães Rosa utiliza desse recurso de ação e comunicação do homem, a palavra, para contar uma história, através de uma “canção a fazer-se”. A linguagem é confusa, pois o recado do morro é transmitido por várias personagens até alcançar seu destinatário. O conto O Recado do Morro traz em seu bojo toda uma aura mítica. Compete ao destinatário da enigmática mensagem, a personagem Pedro Orósio e ao leitor buscarem o sentido da mensagem enviada por um morro. Para tanto, precisarão de aguçada sensibilidade e conhecimento do significado dos nomes das personagens envolvidas na trama, pois a forma pela qual Guimarães Rosa as batizou será a chave para decifrar o recado. Faz-se necessário ainda observar o aspecto de semelhanças e diferenças entre as versões do recado do morro, que são sete. A abordagem deste trabalho será à luz dos significados dos nomes das personagens no texto.
O conto em focopertence ao volume No Urubuquaquá, no Pinhém[1]. Trata-se de uma narrativa de profunda significação mítica: um morro envia um recado para um homem, um dos guias de uma expedição: Pedro Orósio. A comitiva é formada por homens da cidade: o alemão Alquiste, o Frei Sinfrão, o fazendeiro Jujuca do Açude, e é guiada por dois interioranos: Ivo de Tal e Pedro Orósio, conhecido como Pedro Chãmbergo ou Pê-Boi, pelos confins do sertão mineiro.
Em determinado momento da caminhada a expedição encontra seu Malaquias que transmite um recado que ouviu da montanha. A partir daí, o grupo recomeça a sua viagem. O recado do morro e a viagem seguem o mesmo percurso. A mensagem é passada de boca em boca, havendo interferências e alterações na transmissão da mesma, de acordo com a sensibilidade de cada receptor. Contudo, a mensagem foi conservada em sua essência: um aviso de morte à traição, uma emboscada em que a vítima, alertada pelo recado de um morro, descobre a trama e castiga seus inimigos.
Guimarães Rosa analisa o contexto no qual está inserido um plano de assassinato à traição, mas não observa apenas o mero pitoresco local e o linguajar típico, mas sim a recriação poética de uma cosmovisão sertaneja. O ambiente, os costumes, as tradições, os modismos e a fala peculiares às personagens enfocadas, são apenas um suporte para a sondagem e reflexão dos problemas humanos.
Analisando os nomes que Guimarães Rosa selecionou para batizar suas personagens em O Recado do Morro,verifica-se que tal processonão ocorre de forma aleatória, mas com objetivos intimamente ligados ao perfil que traçou de suas personagens, cujos significados dos nomes abrem perspectivas para a decifração da mensagem como num processo que se desencadeia paulatinamente, até alcançar seu destinatário. O perfil dos componentes da expedição é revelado pelo texto:
O alemão Alquiste ou Olquiste – “com raro cabelim, barba de milho e cara de barata descascada”. ‘O sol faiscava-lhe nos aros dos óculos, mas, tirados os óculos, de grossas lentes, seus olhos se amaciavam num aguado azul, inocente e terno... . Calçava botas cor de chocolate, de um novo feitio; por cima da roupa clara, vestia guarda-pó de linho, para verde; traspassava a tiracolo as correias da codaque e do binóculo; na cabeça um chapéu-de-palha de abas demais de largas, arranjado ali na roça. (p.12)
Segundo a descrição que o narrador faz, Alquiste observa atentamente a flora e a geologia na região, sempre anotando o que via. Acrescenta-se ainda: “o louraça, seo Alquiste, parecia querer remedir cada palmo de lugar, ver apalpados as grutas, os sumidouros, as plantas do caatingal e do mato...” (p.12). Esta passagem confirma sua condição de cientista, interessado nas ciências naturais e ainda “... por meio de uma alusão (em alemão) aos ramos do olmo... Olquiste” sugere ainda outros nomes nórdicos, onde há etimologicamente a presença do sema “oco”. Em alemão Hofh Kiste –caixa oca, como as grutas que repetem os ecos dorecado do morro[2]. Configura-se assim a relação que a personagem traz com a natureza através do sentido do seu nome. Alquiste/Olquiste ainda traz consigo a máquina que serve para imobilizar o instante que passa, para segurar momentaneamente o tempo. É ele quem percebe a importância do recado entregue por Gorgulho:
– Vad? Fara? Fam? – e seo Alquiste se levantava... Só se pelo acalor de voz do Gorgulho ele pressentia. E até se esqueceu, no afã, deu apressadas frases ao Gorgulho, naquela língua sem as possibilidades. O Gorgulho meio se arregalou, e defastou um passo. Mas se via que algum entendimento, como que de palpite, esteve correndo entre ele e o estranjo: porque ele ao de leve sorriu... .(p.28)
É ainda seu Alquiste quem faz a analogia existente entre Pedro Orósio e a figura bíblica “Sansão”, destacando a força física de Pê-Boi. Outro componente da equipe de viagem é Frei Sinfrão: “segundo um frade louro – frei Sinfrão – desses de sandália sem meia e túnica marrom, que têm casa de convento em Pirapora e Codisburgo” (p.12). Sinfrão lembra sinfronismo, um aspecto que “segundo Castagnino é a exigência de que o leitor participe da criação de maneira ativa, de que a leitura seja uma atividade e uma decifração”[3]. Este aspecto assume grande relevância na obra de Guimarães Rosa, na qual o leitor é convidado a decifrar, juntamente com as personagens, um código misterioso para alcançar o significado implícito na mensagem enviada por um morro.
Outro componente da expedição é seu Jujuca do Açude, cujo nome aponta para uma significação no texto: “com eles, seo Jujuca do Açude, fazendeiro de gado, e filho de fazendeiro, de seu Jujuca Vieira, com apelido seu Juca do Açude, da Fazenda do Açude, para lá atrás do Saco do Sajoão (p.12). No nome “Jujuca encontra-se um processo de formação hipocorística por redobro da sílaba inicial”[4]. Jujuca do Açude traz outro significado: “um hipocorístico com função patronímica, pois é o filho do dono da fazenda do Açude, seu Juju Vieira, também chamado Juca do Açude”[5].
Ivo é outra personagem cujo nome traz um significado fundamental na narrativa: “um Ivo, Ivo de tal, Ivo da Tia Merência e se revela da alcunha de Crônh’co, Crnhco, Crônico. E esse Ivo era um sujeito de muita opinião, que teimava de cumprir tudo o que dava anúncio de um dia fazer. Por isso, o apelido dele, que tinha era – “Crônico” (p.12). Seu nome está ligado a “Cronos, o tempo, Saturno – na mitologia grega, deus personificado pelo tempo”[6]. Ivo Crônico representa na narrativa aquele que age sobre o tempo, que altera a cronologia prevista para os acontecimentos: a festa que estava marcada para o domingo no povoado vizinho é antecipada para a véspera, para o sábado, o seu dia, sua plena dominação temporal: “– mas, olha: de tardinha, depois do jantar, ehem? – Mas a festa não é amanhã? – Virou pra hoje”(p.57). Ivo planeja a morte de Pê-Boi aliando-se a seis homens.
Destaca-se no texto o sentido do nome Pedro Orósio, Pedro Chãbergo ou Pê-Boi, nomes que designam a personagem para quem a natureza envia um recado. O nome Pedroestá ligado à idéia de grandeza, fortaleza, solidez, coragem, rijo como uma pedra. Orósio está associado a monte, integridade, e Chãbergo indica a natureza simplória do sertanejo: “o pobre do Pedrão Chãbergo, um capiau simplório, assim transvisto, sem outro destaque a não ser o da estatura:
Debaixo de ordem. De guiador – a pé, descalço – Pedro Orósio: moço, a nuca bem-feita, graúda membradura; e marcadamente erguido: nem lhe faltavam cinco centímetros para ter um talhe de gigante, capaz de cravar de engolpe em qualquer terreno uma acha de aroeira, de estalar a quatro em cruz os ossos da cabeça de um marruás, com um soco em sua cabeloura, e de levantar do chão um jumento arreado, carregando-o nos braços por meio quilômetro, esquivando-se de seus coices e mordidas, e sem nem por isso afrouxar do fôlego de ar que Deus empresta a todos. (p.11)
Observa-se que o fato de Pedro tirar as botinas e preferir andar a pé, já é um indício de sua íntima identificação com a natureza, pois está em contato direto com a terra de onde vai retirar o segredo, como se retirasse dela a energia para viver ao desvendar o mistério que envolve o Morro da Garça. Pedro sente-se incapaz de compreender e refletir acerca do mundo de seus companheiros de viagem: “um enxadeiro, sol a sol debruçado para a terra do chão de orvalho a sereno, e puxando toda força de seu corpo, como é que há de saber pensar continuado? (p.18). Frei Sinfrão serve de ponte entre Pedro e os demais companheiros, uma espécie de intérprete:
– Quer saber donde você é, Pedro. Se nasceu aqui?
Não. Pê-Boi era de mais afastado, catrumano, nato num povoadim de vereda, no sertão dos campos-gerais. Homem de brejo de buritizal entre as chapadas arenosa... .
Se você é solteiro ou casado, Pedro?
E frei Sinfrão mesmo sabia, já respondia, jocoso, linguajando. Que o Pedro era ainda teimoso solteiro, e o maior bandoleiro namorador: as moças todas mais gostavam dele do que de qualquer outro; por abuso disso, vivia tirando as namoradas, tomava a que bem quisesse, só por divertimento e indecisão. Tal modo que muitos homens e rapazes lhe tinham ódio, queriam o fim dele... . (p.15)
Nota-se que apesar de Pedro ser um homem simples e calado, isso não constituía obstáculo para suas conquistas amorosas, causa do ódio que despertava em muitos homens, principalmente em Ivo, personagem responsável por arquitetar um plano de vingança. Mas Pedrão na sua simplicidade assume um papel de destaque na comitiva, quando a guia pelo sertão. Há no entanto, uma situação contraditória, pois ao mesmo tempo em que está em posição de destaque, sua postura de estar calado, sempre distante, revela uma questão ideológica onde “os patrões falam” e os demais permanecem calados. A pesar de estarem numa mesma comitiva, os componentes não se misturavam, sempre faziam refeições separados. Pela descrição apresentada da personagem Pedro, observa-se que é um homem privilegiado pela natureza, a qual providencia seu livramento através de uma montanha. E Pê-Boi, porque é homem terra, é pedra, é capaz de entender o sentido da mensagem antes que o plano se realize. Talvez porque a voz da terra fosse a voz do seu próprio inconsciente que antecipava seu destino. Mas para que o recado do morro fosse compreendido, percorreu a mesma caminhada feita pela expedição. A personagem principal teve de buscar no nome dos envolvidos o sentido do recado da montanha. As versões são apresentadas por personagens que recebem o recado que vem do fundo da terra “de debaixo do chão”, e que passa de boca em boca de forma ininteligível, por sete personagens consideradas instrumentos para a transmissão da mensagem. Essas personagens são vistas como marginais e aparentemente incapazes de decodificar uma mensagem tão complexa. No entanto, é na última versão que o recado ganha a forma acabada de uma canção, através do cantador popular. As sete versões serão analisadas a partir da relação com os nomes dos transmissores.
Na primeira versão do recado do morro aparecem personagens que admiram de ser Gorgulho o transmissor do recado, por isso não dão importância:
Mas, enquanto isso, seo Alquiste punha uma atenção aguda, quase angustiada, nas palavras do Gorgulho – frei Sinfrão e seo Jujuca se admiravam: como tinha ele podido saber que agora justamente o Gorgulho estava recontando a doidice aquela, de ter escutado o Morro gritar? Pois falou:
Que que disse? Del-rei, ô, demo! Má-hora, esse Morro, áspero, só se é de satanás, ho! Pois-olhe que, vir gritar recado assim, que ninguém não pediu: é de tremer as peles ... Por mim, não encomendei aviso, nem quero ser favoroso ... Del-rei, del-rei, que eu cá é que não arrecebo dessas conversas, pelo similhante! Destino? Quem marca é Deus, seus Apóstolos! E que toque de caixa? É festa? Só se for morte de alguém ... Morte à traição, foi que ele morro disse. Com a caveira, de noite, feito História Sagrada, del-rei, del-rei. (p. 28)
Percebe-se que apenas a personagem Alquiste dá importância ao recado de Gorgulho. Frei Sinfrão ignora a mensagem: “não, não era nada importante, o frade explicou, o quanto pôde...”. (p.28). Gorgulho, que também entende a linguagem da natureza, faz parte dela: “É o Gorgulho... – Quem? Um velhote grimo, esquisito, que morava sozinho dentro de uma lapa, entre barrancos e grotas – uma urubuquara – casa dos urubus, uns lugares com pedreiras. O nome de verdade era Malaquias. O Gorgulho parecia um garatujo, um desses calungos pretos”(p.19).Observa-se que no nome de Gorgulho há um ponto de fundamental importância para a compreensão do recado: “O Gorgulho engolido pela gruta designa pedrinhas, cascalhos e fragmentos de rocha, bancos de areia e depósitos sedimentares, aparentando o morador da caverna ao relevo, capacitando-o a ouvir, embora surdo, o recado da grande pedrda-pirâmide-esfinge que é o Morro da Graça/Graça, o Verbo.”[7]. A personagem Gorgulho que é apelidado de Malaquias, já traz nesse nome uma grande revelação: é o mensageiro de uma profecia. No Velho Testamento, Malaquias é o profeta de Deus. No conto em estudo, Malaquias representa um dos portadores da mensagem da natureza, aquele que traz um aviso, é o portador da verdade, mas por ser “um louco”, as pessoas não dão importância, pois é visto como um “gauche”, aquele que se desvia do caminho, que não está preso aos padrões sociais e por isso encontra-se livrepara entender um recado da natureza, visto estar ligado afetivamente a ela, e assim, capacitado para decifrar sua mensagem.
Há na história O Recado do Morro a tentativa de rastrear o “avesso” de um caso de vida ou morte, extraordinariamente comum, que se armou com o enxadeiro Pedro Orósio. O avesso começa no momento em que Pedro Orósio, inocente, encontra um morro que o avisa do perigo e um intérprete lhe traduz o aviso. Este intérprete é o estranho Gorgulho. Seu nome apresenta outra associação: Gorgulho morava num urubuquara, casa dos urubus. Gorgulho partilhava sua morada na caverna de uma montanha com os urubus. Essa circunstância aponta para um fato importante no texto: é como se Gorgulho, assim como os urubus, soubesse o futuro de Pedro, pois segundo o narrador, utilizando-se de um provérbio popular “os urubus sabem o-que-há-de-vir” (p.14).
A segunda versão do recado é transmitida por Catraz. O narrador faz a descrição desta personagem: “desde isso, porém, veio chegando, roupinha brim amarelo de paletó e calça, um camarada muito comprido, magrelo, com cara da sandeu – custoso mesmo se acertar alguma idéia de donde, que calcanha-do-judas, um sujeito sambanga assim pudesse ter sido produzido” (p.35). Catraz personagem marginalizada, é livre de imposições sociais, portanto, apto para entender a enigmática mensagem. Catraz acrescenta um dado que será fundamental para a compreensão do recado, apresentou o número de pessoas envolvidas na trama:
–. .. E um morro, que tinha, gritou, entonces, com ele, agora não sabe se foi mesmo p’ra ele ouvir, e se foi pra alguns dos outros. É que tinha seis ou sete homens, por tudo, caminhando mesmo juntos, por ali, naqueles altos... E o morro gritou foi que nem satanás. Recado dele. Meu irmão Malaquia falou del-rei, de tremer peles, não querendo ser favoroso... Que sorte de destino quem marca é Deus, seus Apóstolos, a toque de caixa de morte, coisa de festa... Era a morte. Com a caveira, de noite, feito História Sagrada... Morte à traição, pelo semelhante. Malaquia dixe... . (p.38).
Nas duas primeiras versões aparecem a comparação do morro com a figura de satanás: “Del-rei, ô demo! Má-hora, esse morro, áspero, só se é de satanás, ho!” (p.28). No segundo recado há a reiteração da figura satânica: “e o morro, que tinha, gritou ... E o morro gritou foi que nem satanás” (p.38). Outro aspecto importante presente a partir da segunda versão é a presença do número sete, que se configura como um indicador da luta que Pedro terá que travar com seus inimigos: “porque ele é também a Terra, planeta ao qual todos os outros astros do sistema se estão opondo: o sol, a lua, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.”Pedro” é também o mundo cristão que chega para dominar o mundo pagão da Antigüidade, com seus deuses do Olimpo”[8]. O número sete no texto sugere a oposição que Pê-Boi teria que enfrentar pois eram sete os seus opositores: Jovelino, Martinho, João Lualino, Zé do Azougue, Venenriano, Hélio Dias Nemes e Ivo.
A terceira versão é transmitida por um menino, para quem não há regras castradoras da sensibilidade. Joãozezim passa o recado adiante. Na forma “Joãozezim” há a aglutinação de “João” mais a redução hipocorística com alteração (im por inho: ZEZIM). A personagem aparece assim descrita no texto: “ao que esse menino Joãozezim era um caxinguelê de ladino: piscava os olhinhos, arregalava os olhos, de bonitas pestanas, e divisava a gente de cima a afundo, nada não perdia”(p.34). Mais uma vez a transmissão do recado do morro não é considerada, pois seu portador é uma criança e as pessoas que a ouvem não decifram o código, pois a condição essencial para alcançar a mensagem é a sensibilidade e a liberdade. Uma passagem revela o descaso das pessoas para com o menino: “por modo, quem ia por atenção no Guégue? Quem, no menino Joãozezim? Onde foi assim que este último achava de contar ao outro aquilo que ouvira e lhe soara tão importante por esquipático, e que ninguém mais aceitaria de comentar...” (p.40). Joãozezim transmite a terceira versão do recado:
... Um morro, que mandou recado! Ele disse, o Catraz, o Qualhacoco ... Esse Catraz, Qualhacoco, que mora na lapinha, foi no Salomão, ele disse ... E tinha sete homens lá, com o irmão dele, caminhando juntos, pelos altos ... Você acredita?
– O recado foi este, você escute certo: que era o rei ... Você sabe o que é rei? O que tem espada na mão, um facão comprido e fino, chama espada. Repete. A bom ... O rei tremia as peles, não queria ser favoroso... Disse que a sorte quem marca é Deus, seus Apóstolos. E a morte, tocando caixa, naquela festa. A Morte com a caveira, de noite, na festa. E matou à traição ... . (p.40)
Nesse estágio, aparece a figura de um rei com espada na mão: Pê-Boi, assim como um rei, guiava a expedição. Mais tarde vai se afirmar como herói, quando vence seus opositores. O recado ainda continua confuso para o mundo dos que vivem sob o império da razão.
Assim como Joãozezim, Guégue, o próximo transmissor da mensagem é sensível ao apelo do morro e cumpre sua missão. No entanto, Guégue é um louco, um marginal, mas passa o recado adiante. Na quarta versão, é acrescentado um questionamento sobre o poder da caveira:
– A bom, no Bõamor: foi que o Rei – isso do Menino – com espada na mão tremia as peles, não queria ser favoroso, chegou a Morte, com a caveira, de noite, falou assombrado. Falou foi o Catraz, Qualhacoco: o da Lapinha. Fez sino-saimão. Mas com sete homens, caminhando pelos altos, disse que a sorte quem marca é Deus, seus doze Apóstolos, e a Morte batendo jongo de caixa, de noite, na festa, feito História Sagrada. Querendo matar à traição. Catraz, o irmão dum Malaquia... Ocê falou: a caveira possui algum poder? É fim-de-mundo?
É começo dele, é o começo – alvorada de toda a Glória: Um arcanjo sabe o poder de palavras que acaba de sair de tua boca... Ajoelha, às graças, ajoelha, já. (p.46)
Percebe-se uma ligação entre as expressões “começo” e “fim de mundo” com a narração feita inicialmente sobre o “caso de Pedro Orósio Sem Que Se Saiba ...”. Consegue-se rastrear pelo avesso um caso de vida e morte (começo: vida; fim: morte) que se armou com Pedrão. A idéia de começo e fim aparece no recado do morro para indicar o destino do protagonista. Pedro não é um homem comum, é pedra: “tu es petros”, por isso compreenderá o recado da montanha.
Os Santos Olhos, o Nominedômine vai gritar o quinto recado do morro, desta vez na Igreja. O sino aparece como um objeto representativo cuja função é apelar aos fiéis para que ouçam o recado. Cria-se um clima propício para a aceitação da mensagem: “ninguém tem tempo de se salvar, de chegar até a Lapinha de Belém, pé na manjedoura”(p.55). Santos Olhos transmite o recado:
Escutem minha voz, que é a do anjo dito, o papudo: o que foi revelado. Foi o Rei, o Rei-Menino, com a espada na mão! Tremam todos! Traço o sino de Salomão. Tremiam as peles – este é o destino de todos: o fim de morte vem à traição, em hora incerta, é da noite. Ninguém queria ser favoroso! Chegou a Morte – aconforme um que cá traz, um dessa banda do norte, eu ouvi batendo tambor de guerra! Santo, Santo, Deus dos Exércitos ... A Morte: a caveira, de dia e de noite, festa na floresta, assombrando. A sorte do destino, Deus tinha marcado, ele com seus Doze! E o Rei, com os sete homens guerreiros da História Sagrada, pelo caminhos, pelos ermos, morro a fora. Todos tremeram em si, viam o poder da caveira: era o fim do mundo. Ninguém em tempo de se salvar ... Deus baixou as ordens, temos só de obedecer. É o rico, é o pobre, o fidalgo, o vaqueiro e o soldado. Seja Caifás, seja Malaquiaas! E o fim é à traição. Olhem os prazos!... . (p.55)
O louco estava pressentindo que o momento de Pedro Orósio estava se aproximando “Olhem os prazos!”(p.55). A sensibilidade desta personagem aponta para a urgência da decifração da mensagem, pois não havia muito tempo, daí a repetição do transmissor: “Olhem os prazos!”
Já a sexta versão do recado apresenta uma visão materialista, pois quem a transmite é um coletor:
Onde é que já se viu?! O rei-menino ... Bom, isso tem, na Festa: um rei menino, uma rainha menina, mais o Rei Congo e a Rainha Conga, que são os de próprio valor ... O rei-menino com a espada na mão! E o cinco – salmão: ara, só se vê disso, hoje em dia, é na bandeira do Divino, bordado, rebordado ... Baboseira! Morrer à traição, hora incerta, de tremer as peles ... Doze dúzias – isso é modo de falar? O que vale a gente é as leis ... Quero ver, meu ouro. Não sou favoroso? Mais novecentos mil e novecentos e noventa-e-nove mil milhões ... A Morte – esconjuro, credo, vote vai, cã! Carece de prender esse Santos-Óleos, mandar guardar em hospícios ... Vê lá se a Morte vem vindo, daí da banda do Norte, feito coisa de Embaixador, no represento de festa de cavalhada? E caixa e tambor, quem estão batendo é essa gente do Sãtomé, à revelia ... Cristãos sem o que fazer... Frioleiras... De que o Rei, pelos ermos, sete soldados, fidalgos e guerreiros da História Sagrada, e Lapa de Belém, tudo por traição, dando conselho e companhia, ao pé da manjedoura, porque Deus baixou ordens... Novecentos milhões ... Nove, seis e um-sete. Posso dar meu juramento. Acaba nunca! Isso de mundo se acabar, de noite ou de dia, é invenção de gente pobre... Arrenego! (p.60).
Nessa versão, marcada pela visão materialista, a figura dos Doze Apóstolos é substituída : “Doze é dúzia .... O que vale a gente é as leis ... quero ver meu ouro”(p.60). Enquanto no quinto recado há uma preparação para sua decifração através de elementos que convergem para a religiosidade, na sexta versão há dúvida quanto á veracidade do recado: “Baboseira! Morrer à traição” (p.59). A figura do coletor expressa a falta de sensibilidade da personagem, um homem de leis jamais poderia alcançar o sentido que subjaz na essência do recado. Entretanto, a última versão é voltada para a questão religiosa e o último transmissor do recado é um cantador: Laudelim, cujo nome já indica musicalidade: Laudelim, Laud’lim ... Lau’_dlim... Laud’lim”. A versão final vem pela voz do poeta que transforma o recado em romance musicado: “com as campainhas do Nome de laudelim acompanhado com as loas e louvações aí presentes etimologicamente (desde o latim laudare), cumpre-se um ciclo”.[9]A condição que a natureza escolheu para enviar seu recado a Pedrão não se adequava às normas ditadas pela razão, no entanto, a trajetória que o recado seguiu teve êxito pela seleção que fez da condição dos transmissores: “... Pela fé, pela loucura, pela inocência, pela infância, pela poesia, em uma sucessão de videntes privilegiados porque carentes, o recado atinge enfim sua forma estruturada e definitiva..”[10]. A personagem Laudelim representa peça fundamental na decifração do recado do morro, pois através da canção vai dar a forma mais elaborada do recado. Seu nome está ligado ao som da viola, semelhante ao sino que acompanha a pregação do jubileu. Da última versão, que é transmitida por Laudelim. Eis alguns trechos:
Quando o Rei era menino/já tinha espada na mão/e a bandeira do Divino com o signo-de-Salomão./Mas Deus marcou seu destino: de passar por traição. ...
A viagem foi de noite/ /por ser tempo de luar./Os sete nada diziam/ porque o Rei iam matar./Mas o Rei estava alegre /e começou a cantar (p.67-68).
Finalmente o recado do Morro alcança seu destinatário, Pedro Osório. Durante a festa planejada por Ivo, o poeta Laudelim canta uma balada, composição sua que narra a história de um rei morto à traição. Pê-Boi, alegre e muito bêbado, principia a cantar a balada. Os inimigos tentam levá-lo a um lugar escuro para a realização do plano, mas Pedro compreende o sentido da música e do recado do morro. As duas narrativas se encontram no momento em que Pê-Boi decodifica a mensagem, compreende o seu verdadeiro sentido: Pedro executa a vingança sobre os inimigos.
Percebe-se que cada texto é uma volta ao anterior, ocorrendo o processo de reescritura, possibilitando uma reelaboração da mensagem durante toda a viagem. As versões apresentadas no texto dão a idéia de movimento e de dinamismo à obra, pois o recado acompanha a expedição até alcançar seu destinatário: Pedro Orósio, Pê-Boi, Pedro Chãbergo.
A presença da narração no texto constitui marca de oralidade “alguém vai falar”. Cada recado não é uma mera repetição em si mesma, mas aponta para um novo signo, uma nova versão captada por transmissores diversos, segundo sua sensibilidade e seu universo. Porém, o universo dos transmissores da mensagem acaba por se encontrar, pois são todos marginais, pessoas que não despertam confiança por viverem em “seu mundo” sem regras e isoladas do convívio social. As repetições do recado vão marcar o aspecto de reescritura e vão dar o caráter de coesão ao texto.
Salienta-se ainda a perigrafia, uma espécie de cerca em volta do livro que não faz parte do texto: ex.: nome do autor, título do livro, índice, orelhas, mas possibilita ao leitor uma “entrada” para o livro, ou melhor, um envolvimento texto-leitor. No caso do título do livro No Urubuquaquá, no Pinhém, remete imediatamente ao animal urubu, que está relacionado com o primeiro transmissor da mensagem do Morro da Graça, Gorgulho, que morava num urubuquara, casa dos urubus. Essa relação entre Gorgulho e os urubus torna-se mais profunda quando o narrador indica o futuro de Pedro Orósio através de um provérbio: “os urubus sabem o-que-há-de-vi” (p.14). O conto O Recado do Morro traz ainda, à guisa de epígrafe, esta contra canção pseudofolclórica que reforça o simbolismo do texto: Morro alto, morro grande / me conta o teu padecer. / Pra baixo de mim, não olho / p’ra cima, não posso ver ... .
O “recado do morro” passa por vários estágios até atingir seu alvo: Pedrão. No entanto, a história de uma canção a formar-se é compreendida por marginais: dois fracos de mente, dois alucinados, um menino, um coletor e, finalmente, um artista. Guimarães Rosa recorre a uma canção popular que passa de boca em boca. Assim como o recado que circulou em sete versões, a canção de Laudelim irá completar o sentido do “recado do morro”. A natureza, além de cenário é um agente ativo, diretamente ligado aos destinos do homem. A criança, os loucos, o cantador, aparecem na obra como entidades criadoras de que Guimarães Rosa transforma em concretização da sensibilidade, da consciência pré-lógica e da rica cultura popular.
Referências Bibliográficas:
ANDRADE, Sônia Maria Viegas. A vereda trágica do Grande Sertão: veredas.São Paulo: Edições Loyola, 1985.
MACHADO, Ana Maria. Recado do Nome. Rio de Janeiro: Imago,1976.
SANTOS, Julia Conceição Fonseca. Nomes de Personagens em Guimarães Rosa. Pref. De N. Rossi. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1971.
SIMÕES, Irene Gilberto. Guimarães Rosa: as paragens mágicas. MCT; CNPQ; Perspectiva, s.d.
ROSA, João Guimarães. No Urubuquaquá, No Pinhém. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
[1] Guimarães ROSA. 7. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. Doravante, as citações desse conto serão seguidas do número da página em que se encontram na referida edição.
[2] Ana Maria MACHADO. O recado do nome. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p.103.
[3] Ana Maria MACHADO. Op. cit., p.105.
[4] Julia Conceição Fonseca SANTOS. Nomes de personagens em Guimarães Rosa. Pref. de N. Rossi. Rio de Janeiro: INL, 1971. p.41.
[5] Apud Julia Conceição Fonseca SANTOS. Op. cit., p.41.
[6] Id. Op. cit., p.109.
[7] Ana Maria MACHADO. Op. cit., p.99.
[8] MACHADO, Ana Maria. Op. cit., p.113.
[9] MACHADO, Ana Maria. O recado do nome. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p.100.
[10] MACHADO, Ana Maria. Op. cit., p.101.